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Jornal de Letras

This review by Eugénio Lisboa of Alberto de Lacerda’s posthumous anthology Labareda, appears in the 7 to 20 November 2018 edition of Journal de Letras, Artes e Ideas (p. 30).


Alberto de Lacerda
‘Sou parte da luz que contemplo’

Em boa hora Luís Amorim de Sousa (LAS), infatigável obreiro da imagem póstuma de Alberto de Lacerda (AL), organizou, para Pedro Mexia, da Tinta da China, a bela e substancial antologia de poemas daquele poeta, a que deu o sugestivo e adequado titulo de Labareda.

Notabilíssimo poeta, nascido em Moçambique mas tendo vivido a maior parte da sua vida em Londres – com períodos “americanos” em Austin (Texas) e Boston – AL tem andada, como poeta, bastante esquecido. Tentei, nos anos 80 do século passado, reacender o interesse pela sua obra, pondo-o, do meu gabinete da embaixada, em Londres, em contacto telefónico direto com Braz Teixeira, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em Lisboa. De aí resultou abundante fruto: a publicação de dois grossos volumes de poesia – Oferenda I e Oferenda II – que reúnem, cada um deles, vários livros anteriormente publicados, além da edição de vários outros títulos de menor dimensão. O poeta não esteve, portanto, inteiramente fora dos focos da ribalta. Mas a atenção crítica que lhe tem sido dedicada tem sido francamente diminuta e outros poetas de bem menor gabarito têm merecido os favores de uma atenção que a ele se tem furtado. Espera-se que esta antologia de LAS, que compreende 163 poemas, dos quais, 29 inéditos, possa levar ao canto singular deste bardo a curiosidade de um abastado punhado de leitores atentos.

Apesar de um já vasto acervo de poemas publicados, LAS informa-nos de que existe ainda cerca de um milhar de poemas inéditos, o que nos torna humildes quanto ao valor de uma avaliação que possamos fazer, face ao cânone até agora conhecido. Haverá que se publicar – como? quando? – todo esse enorme espólio, antes de nos podermos, com alguma confiança e abrangência, pronunciar sobre a poesia deste fecundo e altíssimo poeta.

Dizia Jean Cocteau que os poetas raramente são seres poéticos. Mas LAS observa que AL “correspondia em pleno à ideia que se tem de um poeta.” E era bem verdade. E porque? Amorim de Sousa aduz alguns argumentos, embora em forma interrogativa: “O facto de viver em quartos alugados? Essa maneira de se sentar a um canto de um café e escrevinhar em blocos de papel? O seu olhar ao mesmo tempo perscrutador e longínquo? As suas deambulações pela cidade? A sua ‘falta de jeito para o negócio’?” Tudo isto, talvez, e também a sua paixão insaciada pela liberdade. E o seu gosto pelo cultivo, inteligente, agudo e sensível da língua portuguesa. Dirá, num poema (p. 241 desta antologia): “A língua em que nasci/ Pátria fundamental.” “Acima de tudo”, observe LAS, “Alberto mantinha-se disponível para o poema, e a poesia nunca o abandonou. Visitava-o nos momentos mais banais do dia-a-dia, na intensidade de tudo o que o arrebatava. Tudo tinha expressão poética no mundo íntima de Alberto de Lacerda”.

Privei com AL em Lourenço Marques (éramos ambos estudantes do Liceu), em Lisboa (era eu estudante de engenharia e o Alberto vagamente estudante do Instituto Britânico e da Alliance Française) e, depois, em Londres, onde eu era conselheiro cultural na embaixada e ele se encontrava, nos intervalos dos seus cursos “americanos”. Foi sobretudo em Londres que o nosso convívio foi mais apertado e assíduo. O Alberto era, de facto, um ser singular, pelo modo como vivia e pelo modo como falava. Cultivava a língua com uma precisão acutilante, iluminando-a de forma especial e brandindo-a com galhardia e originalidade. Falava ele próprio dessa língua, que visitava com amor, chamando-lhe nomes: “Esta maravilha/ Assassinadíssima!”; “Este requebro/ Esta ânfora/ Cantante”; “Esta máscula espada/ Graciosíssima”; “Minha núpcia ininterrupta/ Meu amor para sempre/ Minha libertinagem/ Minha eterna virgindade”.

Perscrutador de assombros e de “maravilhas”, Lacerda era o poeta de agonias sombrias mas também da sedução da luz: “Sou parte da luz que contemplo” (p. 218), ou ainda: “Meu canto vai beber/ A tua luz altíssima (p. 235). “Altíssima” era realmente a luz que ele absorvia e nos ofertava, no seu convívio estimulante pelas ruas de uma Londres que conhecia como os seus dedos. Nunca esquecerei uma tarde de sábado em que o Alberto se fez, com entusiasmo e alegria minuciosa, meu (e da Maria Antonieta) cicerone cultural. O ar facilmente fluente como nos ia mostrando lugares e sítios… Ao passarmos, por exemple, por um determinado prédio, aponto-nos, comovidamente, um apartamento: fora dali que T.S. Eliot saíra, uma manhã, para se ir casar com a segunda mulher, Valerie… Londres era toda uma coleção de lugares prenhes de significação. E o Alberto conhecia-os como ninguém. E gostava de os partilhar com os amigos.

Uma coisa que sempre me impressionou em AL foi o seu culto do excessivo, do “gesto atingindo a exaltação suprema”, de que fala um verso seu (p. 238). Era um dos prazeres que fruíamos na sua conversa, este seu gosto pelo excesso, pelo ardor da afirmação excessivamente exagerado, que se prestava a um cómico irresistível. Lacerda não era um morno e, como Deus no Apocalipse, vomitava os mornos. Como para um grande poeta inglês, nada, para ele, era tão bom como o excesso, como o ardor: “De pouco ardor hei-de morrer”, diz um verso seu (p. 24). Dissemos já algures, falando da sua poesia: “É esta dimensão infinita, este excesso, este exagero de afirmação que dão a quase toda a sua poesia uma força única e um fulgor inigualado.” Para Alberto de Lacerda, a paixão é: “cega” e a beleza é “estupenda” (p. 91). E o mundo está cheio de assombros e maravilhas. E também da “câmara dos horrores da memória” (p. 35). Tudo busca e ilumina com o seu canto límpido e excessivo: “Eu sinto, eu creio, eu canto, e a luz é tanta” (p. 22).

Como amava excessivamente Mozart, era sempre na sua companhia, diz-nos Luís Amorim de Sousa, que celebrava a passagem de um ano para outro ano, erguendo uma taça e ouvindo o Divertimento no. 15. Nesses momentos, olhava provavelmente de frente o que diz um verso seu: “Talvez a luz resposta” (p. 54).